COLUNAS

Economia

22 de jun de 2008 , 15h53

O enigma argentino e o limiar de uma nova crise

O enigma argentino e o limiar de uma nova crise

Em livro de 1980, o escritor britânico V. S. Naipaul, prêmio Nobel de Literatura de 2001, manifestou uma perplexidade até hoje recorrente. “O fracasso da Argentina, tão rica, tão pouco populosa … é um dos mistérios do nosso tempo”.

É difícil explicar. A Argentina é um país riquíssimo em recursos naturais. Possui uma das três áreas de fertilidade total do mundo, onde a agricultura floresce sem fertilizantes. A renda per capita e a educação são das melhores da América Latina.

No início do século 20, a Argentina era um dos cinco países mais ricos do mundo. Diz-se que, orgulhosos de sua bela capital – que nessa época já possuía metrô –, eles consideravam Paris como a Buenos Aires da Europa.

A história da rápida ascensão da Argentina é conhecida. Tem origem, no longo período de estabilidade política iniciado na segunda metade do século 19, em boas políticas de educação e na abertura ao investimento estrangeiro. Este, particularmente o britânico, construiu ferrovias, ampliou os portos e expandiu a rede de telégrafos.

A melhoria dos transportes e das comunicações coincidiu com o navio a vapor e a eletricidade, que viabilizou a frigorificação. Com mão de obra qualificada (imigrantes italianos e espanhóis), a agricultura se expandiu rapidamente. O país se beneficiou da demanda mundial de carnes e cereais. As exportações o enriqueceram em apenas 30 anos (1880-1910).

A era de ouro terminou com os ciclos de crise política inaugurados em 1938, quando o presidente Hipólito Yrigoiyen foi derrubado pelos militares. Com Juan Domingo Perón em 1946, veio o pior. Perón dilapidou o valioso patrimônio acumulado nos 60 anos anteriores com seu redistributivismo populista.

As visões equivocadas do caudilho sobreviveram. A impressionante influência de Perón na vida argentina até hoje foi analisada na magnífica obra do escritor Marcos Aguinis – “O atroz encanto de ser argentino”, que se tornou best seller em seu país e foi publicada no Brasil em 2002.

É incrível que o nível cultural dos argentinos não tenha criado restrições institucionais ao arbítrio de seus governantes, o qual se tem manifestado de forma perversa na condução da política econômica. A Argentina não aprende com seus erros.

Há indicações de que vem aí mais uma crise. O peronismo tem parte da culpa. Os anos do casal Kirchner deram a falsa impressão de que políticas que deram errado nos anos 1980 no Brasil e na própria Argentina fariam efeito desta vez. O cardápio é explosivo: restrições ao capital estrangeiro, controle de tarifas públicas e de outros preços, expansão de gastos públicos financiados por tributação punitiva da agricultura, taxa de juros reais negativas e câmbio artificialmente subvalorizado.

O robusto crescimento a partir de 2003 se explica em grande parte porque a economia atingira o fundo do poço depois da moratória da dívida externa de 2001, mas os desequilíbrios começaram a aparecer: desabastecimento e alta da inflação, os quais tendem a abortar o ciclo de expansão.

Como no passado, o governo manipulou os índices de preços, incluindo mudanças metodológicas. A inflação oficial é de menos de 10%, mas levantamentos independentes falam em até 30%.

Acordos artificiais de preços mantêm baixa a inflação oficial. Por isso, a taxa de variação dos preços dos alimentos é estável, caso único no mundo nesta quadra de commodities em alta. A deterioração do ambiente econômico e o controle de tarifas têm provocado queda do investimento nos serviços de infra-estrutura. A taxa de câmbio real – a relevante para as exportações – está em declínio, mesmo se considerada a inflação oficial.

Sempre é tempo para reverter equívocos, mas parece pouco provável que isso aconteça, menos ainda quando a presidente Cristina Kirchner está com sua popularidade em queda livre, em meio a protestos dos produtores, panelaços da classe média e crença firme nos rumos que escolheu. Como se viu, preferiu recorrer a grupos sociais organizados para demonstrar força aos seus opositores.

Para o Brasil, o melhor é que a Argentina seja um país estável, pujante e parceiro. Será bom para nós se eles conseguirem evitar o pior. Enquanto isso, festejemos a decisão do governo Lula de não embarcar em propostas de adoção, por aqui, da mesma política econômica desastrosa dos argentinos.

← Voltar