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Política

2 de dez de 2015 , 21h19

Em plena ressaca, mais um pileque

Em plena ressaca, mais um pileque

Atribui-se a Lula uma articulação para demitir o ministro da Fazenda, que estaria “com prazo de validade vencido”. Acusa-se Joaquim Levy de só falar em ajuste fiscal, sem verbalizar uma mensagem otimista. Lula e o PT desejariam mudar a política econômica e nomear para o cargo Henrique Meirelles, esperando que adote medidas para expandir o crédito e ampliar o consumo. O mercado financeiro especula que Meirelles articularia melhor o apoio político para aprovar o ajuste fiscal. No boato, a bolsa subiu e o dólar caiu. Nada, porém, favorece a tese.

Não há como gerar crescimento satisfatório e saudável nos próximos três anos. A recessão de 2015 deve continuar em 2016 – consequência da falta de reformas para aumentar a eficiência na economia, da lamentável intervenção estatal e do fiasco da desastrada Nova Matriz Macroeconômica. Em 2017 e 2018, a depreciação cambial e seus efeitos na competitividade podem trazer uma medíocre recuperação, mas as perdas do biênio 2015-2016 não serão compensadas. O PIB cairá no segundo mandato de Dilma.

Lula sabe que o consumo é um determinante do crescimento, mas parece não perceber que ele não pode ser dissociado da produtividade, que explica cerca de 80% da expansão do PIB na maioria dos países. Estimular o consumo de forma voluntarista para fazer crescer a economia tende a ser desastroso, como mostram conhecidas experiências populistas na América Latina. Sem que a oferta se expanda, o incentivo ao consumo acarreta tão somente inflação e déficit externo.

Lula provavelmente imagina ser possível reproduzir o ambiente de 2003, quando a expansão do crédito de consumo ajudou a animar a economia. Acontece que a maior contribuição veio dos efeitos retardados das reformas de governos anteriores, em especial as do período FHC, que mais tarde elevariam a produtividade. E também da ascensão da China, cujas importações de commodities começaram a influenciar a economia brasileira justamente naquele ano. A demanda chinesa, uma espécie de maná dos céus, teve impacto equivalente a um forte ganho de produtividade. O quadro completava-se com confiança em alta e inflação, juros e câmbio em queda.

O Brasil vive hoje situação exatamente oposta: inflação, juros e câmbio em alta; confiança, consumo e investimento em declínio. Salvo no agronegócio, a produtividade cai em todos os segmentos. Estamos em plena ressaca da bebedeira de consumo estimulada pela Nova Matriz. A proposta insensata de Lula é fazer a economia tomar um novo pileque de consumo. Não pode dar certo. Ações populistas como essa costumam expandir temporária e ilusoriamente a economia, mas logo se esgotam, dando lugar a crises inflacionárias e de balanço de pagamentos.

Na atual situação, nem esse efeito passageiro aconteceria. Os mercados e avaliadores de risco perceberiam instantaneamente a guinada populista. A confiança despencaria ainda mais, a nota de crédito do país sofreria seguidos rebaixamentos, o dólar dispararia e o crédito ficaria mais caro. A inflação poderia ficar incontrolável. Um desastre.

Para um assessor palaciano, “Levy perdeu o poder de influir” (O Estado de S. Paulo, 14 de novembro de 2015). As tarefas que a presidente lhe atribuiu “não estão mais surtindo o efeito esperado”. Seria preciso “encontrar uma maneira de abrir crédito, incentivar a indústria e as áreas de infraestrutura e construção civil”. Há que dar “um fio de esperança à população, aos empresários e ao mercado”. Discurso irrealista e assustador.

Se Lula impuser a mudança, Meirelles terá apenas duas escolhas. Primeira, fazer jus à sua reputação e conhecimentos, o que o levaria a continuar o trabalho de Levy, sob vicissitudes semelhantes. Afinal, a dificuldade de aprovar o ajuste fiscal não decorre de suposta incompetência do ministro, mas da impopularidade e da fragilidade política de Dilma. Meirelles logo enfrentaria a mesma conspiração que ora se desenvolve contra Levy. A segunda escolha seria inebriar-se com a expectativa de poder e embarcar na loucura de Lula, do PT e de grupos palacianos. A crise se aprofundaria, provocando efeitos terríveis. A escolha mais provável é a primeira. Ele ficaria pouco tempo no cargo.

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